21/03/2013

Um conto da Cebola



Mais ou menos uma vez por mês, vou a São Paulo, passar uns dias com o Fred, como ele mora sozinho nunca tem nada alem de bebidas na geladeira, esta é uma peculiaridade de muitas pessoas quem vivem nos grandes centros, sem falar que há uma grande parcela de Paulistas, que tendem adorar restaurantes. Assim para tira-lo desta rotina, vez por outra vamos ao mercado, alias  é “O mercado”, trata-se de um super gaúcho  que em São Paulo é demais de bom, talvez seja o único  que gosto de ir, não sei se é por que tudo parece ter muita qualidade, ou porque o lugar é um charme, ou simplesmente porque nunca sou eu quem paga a conta,de certo que a companhia do Fred e a soma de todas estas coisas, definem essa minha preferência. Assim algumas vezes compramos suprimentos, na medida exata  para a estadia,com isso sempre acabo preparando algo delicioso para curtimos o aconchego do cantinho do Fred.
Eis que, umas das vezes que fui, entre outras coisas, compramos duas cebolas, uma eu usei no molho da macarronada e a outra acabou sobrando, foi quando a guardei cuidadosamente na gaveta de legumes da geladeira, sabe aquela gaveta que fica bem em baixo? Pois é, foi exatamente lá que ela ficou. Passado um mês eu retornei, cheguei tarde, quando entrei em casa perguntei ao Fred se tinha algo pra beber , ele disse: “Vai La na geladeira da uma olhada, tem uma surpresinha pra você”. Um pouco desconfiada e divertida fui imaginando que encontraria uma daquelas cervejas vermelhas e deliciosas que o Fred sempre tem guardadinha para ocasiões especiais. Quando abri a porta da geladeira não pude acreditar no que vi, simplesmente fiquei boquiaberta, nada tinha dentro a não ser uma linda e genuína expressão de vida. Saia da gaveta térrea de legumes, um talinho de um verde cintilante e translucido, subia no cantinho direito do fundo da geladeira, bem coladinho até a lâmpada que fica no alto e lá, bem próximo da lâmpada o talinho ficava mais fino, e com uma pontinha mais fininha ainda, certamente em busca de calor, tocava delicadamente a base de metal da tomadinha onde acopla a lâmpada. 
Muito surpresa, depois de alguns instantes de contemplação, abri um pouquinho à gaveta dos legumes, queria ver de onde tinha surgido aquela vida, e para meu absoluto espanto vi que saíra daquela cebola que eu havia deixando antes de partir, a mais de um mês, a pobrezinha estava magrinha quase sequinha, no entanto seu talo era o mais lindo talo de cebola que já vira , foi então que o Fred me falou de forma solene “o destino dela está em suas mãos eu é que  não vou tirar ela daí ”. Que decisão difícil. O que fazer? O que você faria?



Alba Regina Bonotto